De acordo com reportagem da ANSUBA publicada em dezembro de 2025, Porto Seguro enfrenta crise de segurança nas praias. Entre setembro de 2024 e outubro de 2025, o 6º Batalhão de Bombeiros Militar registrou cerca de 28 casos de afogamento, sendo 16 com desfechos fatais. A cidade recebeu mais de 2,4 milhões de visitantes em 2024, segundo dados da Prefeitura, mas carece de estrutura de prevenção.
As praias de Taperapuã, Mundaí e Coroa Vermelha concentram o maior número de salvamentos e afogamentos, conforme informações do tenente Teles, do 6º Batalhão de Bombeiros. As praias atraem grandes concentrações de banhistas, aumentando o risco de incidentes.
Correntes de retorno aumentam o perigo
Na reportagem, especialistas apontam as correntes de retorno como uma das principais causas dos afogamentos. A bióloga Gleiciane Marques, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), explica que essas correntes se formam em canais estreitos entre bancos de areia, onde a água retorna ao oceano de forma acelerada.
“Ao ser arrastado por uma corrente de retorno, o banhista é rapidamente levado para áreas mais afastadas da costa, onde a profundidade aumenta. Nadar contra essa corrente pode ser exaustivo e até fatal”, afirma a bióloga.
Em Porto Seguro, essas correntes ocorrem de forma esporádica, especialmente na Orla Norte e em Coroa Vermelha. O correto, segundo instruções do tenente Teles, é manter a calma, flutuar e nadar lateralmente para sair da área de risco.
Casos registrados na cidade
Em maio de 2025, o Corpo de Bombeiros resgatou um adolescente de 12 anos que se afogava na Praia das Pitangueiras. Dois amigos adolescentes que também estavam na água conseguiram se salvar com a ajuda de banhistas.

Em outubro de 2025, Maria Aparecida, de 51 anos, morreu afogada próximo à Cabana Malibu, em Taperapuã. A turista vinha de Montes Claros (MG) para aproveitar o fim de semana com a família. A ANSUBA documentou esse e outros casos semelhantes ocorridos na cidade
A banhista Marília Lacerda, que presenciou um afogamento na Praia das Pitangueiras, relatou que o local não possui sinalização sobre perigos. “Não há salva-vidas e os turistas que não conhecem a região correm risco maior”, afirma.
Turistas reclamam de falta de informação
O casal Lucy Lessa e Eduardo, de São Paulo, informou que não recebeu orientação sobre riscos das praias ao chegar em Porto Seguro. Eles compararam a situação com Guarapari (ES), onde as praias possuem vários salva-vidas e sinalização clara.
A Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa) aponta que o risco de morte por afogamento em praias sem guarda-vidas é 60 vezes maior. A entidade alerta que turistas representam 3% de todas as mortes por afogamento no país, sendo 23% deles de Minas Gerais, 19% de São Paulo e 15% do Paraná.
Dados nacionais alarmantes
Entre 2010 e 2023, o Brasil registrou 71.663 mortes por afogamento, segundo o Ministério da Saúde. Adolescentes de 10 a 19 anos representaram 17,7% dos casos (12.662), enquanto crianças de 1 a 4 anos somaram 8,2% (5.878).
A Sobrasa indica que Santa Catarina (18%), Espírito Santo (13%) e Bahia (12%) concentram o maior número de afogamentos envolvendo turistas. A entidade destaca a necessidade de investimento em prevenção ativa (sinalização) e reativa (guarda-vidas).
Três anos de promessas não cumpridas
Em outubro de 2022, a Câmara de Porto Seguro aprovou unanimemente o projeto de lei nº 095/2022, que criaria 30 cargos efetivos de guarda-vidas com 40 horas semanais. A seleção ocorreria por concurso público.
Três anos depois, a prefeitura não se pronunciou à ANSUBA sobre o andamento do processo. O concurso nunca foi realizado, deixando as praias sem a cobertura de profissionais especializados.
Ações de prevenção em curso
O Corpo de Bombeiros realiza o Projeto Anjinhos da Praia, voltado para educação de crianças e famílias sobre segurança no mar. Ações preventivas são intensificadas durante o verão e grandes eventos turísticos.
Voluntários da Sobrasa atuam na região através da PS Treinamentos, oferecendo palestras, workshops e conteúdo educativo nas redes sociais, de forma gratuita.
Mateus Almeida, diretor da PS Treinamentos, afirma que o afogamento é um incidente evitável. “A educação é o primeiro pilar. O poder público deve fazer sua parte com conscientização em massa e presença de guarda-vidas”, diz.
Para Almeida, a ausência de salva-vidas em Porto Seguro é descaso, especialmente considerando que a cidade é um dos maiores destinos turísticos do Brasil. Cidades próximas como Ilhéus possuem profissionais militares e civis dedicados à segurança nas praias.
Recomendações de segurança
O tenente Teles orienta banhistas a evitar nadar após ingerir bebidas alcoólicas e não se afastar da faixa de areia. Também recomenda respeitar as condições do mar e não superestimar habilidades de natação.
Segundo o oficial, a imprudência continua sendo o principal fator em afogamentos, mas muitas ocorrências poderiam ser evitadas com educação preventiva e estrutura adequada de segurança.



